Primeiro veio-me a imagem da cristaleira, imponente e solitária, recostada no centro de uma das paredes da sala de jantar da casa de meus tios Alídio e Ana, guardando um sem número de louças, as memórias materiais de um tempo que eu desconhecia, mas que muito atiçava-me a curiosidade quando mamãe comentava sobre a beleza do móvel e das relíquias que nele havia. Depois, veio-me o cheiro do chá preto e a luz do sol, invadindo todos os cômodos da casa, sendo refletida na bandeja de prata onde as pequenas xícaras de porcelana, detalhadas com desenhos de ramos de oliveira, trepidavam ao tremor das mãos da minha tia, que trazia-nos a bebida quente com um sorriso no rosto e nos servia com a amabilidade que jamais vi em outro ser humano.
Era uma tarde de 1993, ou seria 1994? O mundo ainda tinha a riqueza e a fragilidade de um botão de rosa aos meus olhos. E quantas rosas não havia no jardim da casa de minha tia? Desde os portões podia-se ver a miríade de cores que se estendia até o alpendre. Adentrar os portões da casa de tia Ana era como mergulhar - antes tornando-se menor para isso, por respeito e admiração à beleza - numa paleta de cores. Que cheiro deveria ter o jardim quando chovia? Coisa que não é possível saber. No entanto é inesquecível o som dos pássaros, que voavam dos galhos do pé de café para o chão do pátio, próximo aos portões, como se quisessem dar boas vindas a mim e aos meus pais, que agora soltavam-me as mãos para abraçar minha tia e correr para encontrar o meu tio.
Tio Alídio estava na sala de estar, como de costume, fumando cachimbo em sua cadeira de balanço. Vi-o de costas quando adentrei a sala correndo, os cabelos brancos e longos caindo sobre os ombros largos. Meu tio era um homem de compleição forte, de pele queimada pelo sol, uma marca dos seus anos de menino, quando morava com a família numa cidadezinha do interior de São Paulo, Agudos, e lá trabalhava nas plantações com os pais e o restante dos irmãos. Era o irmão predileto de meu avô, a propósito, e meu avô o irmão predileto do meu tio. Não era raro vê-lo numa manhã de domingo, na casa do meu avô, jogando conversa fora enquanto saboreava uma xícara de café. As visitas do meu tio ao meu avô tornaram-se mais frequentes depois da morte da minha tia, em 1996.
Lembro-me que meu tio, ouvindo os meus passos cessarem no limiar da porta da sala de estar, virou-se na cadeira de balanço e me lançou um olhar de ternura, abrindo um sorriso de satisfação ao me ver. Me chamou para um abraço e eu fui. Foi um dos abraços mais verdadeiros que já recebi, não tenho dúvida. Meus pais e minha tia também entraram em casa instantes depois, e eu tive de sair do abraço apertado do meu velho tio para que ele pudesse cumprimentá-los também. Era uma separação dolorosa.
O chá só vinha depois de muita conversa. Naquela época, provavelmente ainda se discutia a implementação do Real e a ascensão das igrejas neopentecostais no país. Meus pais e meus avós faziam parte de uma delas, mas meus tios frequentavam uma outra igreja qualquer. Tia Ana devia gostar mais desse assunto, já ao meu tio devia agradar mais o primeiro. Se fosse possível reencontrá-lo, visitá-lo de novo em sua casa numa tarde como aquela, tenho certeza de que ele sentiria orgulho de mim por jamais tocar em assuntos pouco ou nada interessantes como a religião.
Quando tia Ana terminava de passar a bandeja com as xícaras de chá fumegante entre os presentes na sala, ela sentava-se em sua poltrona, revestida por um tecido florido em que as flores vermelhas sobressaíam-se em relação às outras, amarelas, azuis, e de lá, com o pescoço que parecia apertar no colarinho branco do seu vestido amarelo e engomado, lançava um olhar doce à criança que brincava com um trenzinho sobre o tapete persa de sua sala: eu.
Se pudesse descrever tia Ana em uma palavra apenas, seria elegância. Ela foi a mulher mais naturalmente elegante que já conheci. Sua postura ereta, seus gestos de extrema delicadeza, seus lábios levemente contraídos, seus cabelos brancos presos em um coque mais do que perfeito, o modo como segurava a xícara com os dedos de uma mão e o pires com a outra. Ah, tia Ana, parece que a vejo como num quadro!
Não me recordo da sua voz, nem da de meu tio; tampouco me recordo das outras vezes que fui à sua casa em companhia de meus pais. Lembro-me de apenas dois dias seus: da tarde em que tomávamos chá na sala de estar e do dia do seu funeral. O corpo de minha tia foi velado no alpendre de sua casa, como era de seu querer. Não me lembro de terem me erguido nos braços para ver o seu rosto no caixão. Mas minha tia deveria estar bonita e elegante, mesmo morta e mais branca do que de costume. A última recordação que tenho daquele dia lúgubre é o jardim. Enquanto ao longe o caixão de minha tia indicava aos recém-chegados ao velório o caminho, eu observava um pequeno pássaro que havia voado de um dos galhos do pé de café para o pátio, carregando um pequeno raminho no bico, semelhante aos ramos das xícaras de porcelana onde minha tia servia o chá.
Era uma tarde de 1993, ou seria 1994? O mundo ainda tinha a riqueza e a fragilidade de um botão de rosa aos meus olhos. E quantas rosas não havia no jardim da casa de minha tia? Desde os portões podia-se ver a miríade de cores que se estendia até o alpendre. Adentrar os portões da casa de tia Ana era como mergulhar - antes tornando-se menor para isso, por respeito e admiração à beleza - numa paleta de cores. Que cheiro deveria ter o jardim quando chovia? Coisa que não é possível saber. No entanto é inesquecível o som dos pássaros, que voavam dos galhos do pé de café para o chão do pátio, próximo aos portões, como se quisessem dar boas vindas a mim e aos meus pais, que agora soltavam-me as mãos para abraçar minha tia e correr para encontrar o meu tio.
Tio Alídio estava na sala de estar, como de costume, fumando cachimbo em sua cadeira de balanço. Vi-o de costas quando adentrei a sala correndo, os cabelos brancos e longos caindo sobre os ombros largos. Meu tio era um homem de compleição forte, de pele queimada pelo sol, uma marca dos seus anos de menino, quando morava com a família numa cidadezinha do interior de São Paulo, Agudos, e lá trabalhava nas plantações com os pais e o restante dos irmãos. Era o irmão predileto de meu avô, a propósito, e meu avô o irmão predileto do meu tio. Não era raro vê-lo numa manhã de domingo, na casa do meu avô, jogando conversa fora enquanto saboreava uma xícara de café. As visitas do meu tio ao meu avô tornaram-se mais frequentes depois da morte da minha tia, em 1996.
Lembro-me que meu tio, ouvindo os meus passos cessarem no limiar da porta da sala de estar, virou-se na cadeira de balanço e me lançou um olhar de ternura, abrindo um sorriso de satisfação ao me ver. Me chamou para um abraço e eu fui. Foi um dos abraços mais verdadeiros que já recebi, não tenho dúvida. Meus pais e minha tia também entraram em casa instantes depois, e eu tive de sair do abraço apertado do meu velho tio para que ele pudesse cumprimentá-los também. Era uma separação dolorosa.
O chá só vinha depois de muita conversa. Naquela época, provavelmente ainda se discutia a implementação do Real e a ascensão das igrejas neopentecostais no país. Meus pais e meus avós faziam parte de uma delas, mas meus tios frequentavam uma outra igreja qualquer. Tia Ana devia gostar mais desse assunto, já ao meu tio devia agradar mais o primeiro. Se fosse possível reencontrá-lo, visitá-lo de novo em sua casa numa tarde como aquela, tenho certeza de que ele sentiria orgulho de mim por jamais tocar em assuntos pouco ou nada interessantes como a religião.
Quando tia Ana terminava de passar a bandeja com as xícaras de chá fumegante entre os presentes na sala, ela sentava-se em sua poltrona, revestida por um tecido florido em que as flores vermelhas sobressaíam-se em relação às outras, amarelas, azuis, e de lá, com o pescoço que parecia apertar no colarinho branco do seu vestido amarelo e engomado, lançava um olhar doce à criança que brincava com um trenzinho sobre o tapete persa de sua sala: eu.
Se pudesse descrever tia Ana em uma palavra apenas, seria elegância. Ela foi a mulher mais naturalmente elegante que já conheci. Sua postura ereta, seus gestos de extrema delicadeza, seus lábios levemente contraídos, seus cabelos brancos presos em um coque mais do que perfeito, o modo como segurava a xícara com os dedos de uma mão e o pires com a outra. Ah, tia Ana, parece que a vejo como num quadro!
Não me recordo da sua voz, nem da de meu tio; tampouco me recordo das outras vezes que fui à sua casa em companhia de meus pais. Lembro-me de apenas dois dias seus: da tarde em que tomávamos chá na sala de estar e do dia do seu funeral. O corpo de minha tia foi velado no alpendre de sua casa, como era de seu querer. Não me lembro de terem me erguido nos braços para ver o seu rosto no caixão. Mas minha tia deveria estar bonita e elegante, mesmo morta e mais branca do que de costume. A última recordação que tenho daquele dia lúgubre é o jardim. Enquanto ao longe o caixão de minha tia indicava aos recém-chegados ao velório o caminho, eu observava um pequeno pássaro que havia voado de um dos galhos do pé de café para o pátio, carregando um pequeno raminho no bico, semelhante aos ramos das xícaras de porcelana onde minha tia servia o chá.
Me fez pensar muito sobre meus avós e não em meus tios. A sensação porém, é bem diversa. Sempre dificuldade em relaciona-me com meus avós justamente por conta da religião. Minha família inteira evangélica em contraponto a uma mãe aberta religiosamente e a um pai ateu.
ResponderExcluirTenho reservas em relação a você e a sua escrita, Felipe, devo ser verdadeiro, mas que você é um talento inegável e um poeta que eu indico, isso sem dúvidas.
Eu gostaria bastante de conseguir desfragmentar as imagens mais encantadoras das nossas vidas com as palavras como vc consegue Felipe,eu não sou super chegada a poesia, mas gosto de linguagem poética na prosa, eu acho vc talentoso,tive sorte em encontrar por acaso esse blog.
ResponderExcluirOlá!
ResponderExcluirÉ um grande prazer conhecer seu blog e poder ler o que escreves.
Acredito que quando escrevemos com prazer conquistamos amigos e fiéis amantes das palavras. Sabemos o quanto é difícil levar a nossa voz, as nossas angustias os nossos sonhos às pessoas. Mas o mais importante é saber que você e eu gostamos daquilo que fazemos.E acreditamos que o mundo pode se tornar bem melhor através de nossos escritos.
Grande abraço
Se cuida